quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Estranha forma de comportamento animal

Estranha forma de comportamento animal
Já que falamos em religião, talvez valha à pena observar mais de perto essa estranha forma de comportamento animal, antes de tratarmos dos restantes aspectos das atividades agressivas da nossa espécie. O assunto não é fácil, mas como zoólogos, devemos fazer o possível para observar o que se passa na verdade, em vez de nos determos ouvindo o que deveria ter acontecido. Se o fizermos, teremos forçosamente de concluir que, em sentido comportamental, as atividades religiosas consistem na reunião de grandes grupos de pessoas que executam longas e repetidas exibições de submissão, no intuito de apaziguar o indivíduo dominante.
Esse indivíduo dominador assume muitas formas nos diferentes tipos de cultura, mas conserva sempre um fator comum: um poder enorme. Às vezes, assume a forma de um animal de outra espécie, ou uma versão mais ou menos idealizada. Outras vezes, é retratado como um membro sensato e idoso da nossa própria espécie. Pode ainda tomar um caráter mais abstrato e receber o nome de “o Estado”, ou outros equivalentes. As respostas submissas que lhe são oferecidas podem consistir em fechar os olhos, baixar a cabeça, pôr as mãos em atitude de súplica, ajoelhar, beijar o solo, ou mesmo chegar à prostração extrema, frequentemente acompanhada de vocalizações de lamento ou de cânticos. Se esses atos de submissão são bem sucedidos, o indivíduo dominante acalma-se. Como mantém enormes poderes, as cerimônias de apaziguamento têm de ser praticadas a intervalos regulares e frequentes, para impedir que o dominador volte a sentir-se irado. Em regra, mas não sempre, o indivíduo dominante é chamado um “deus”.
Como nenhum desses deuses existe numa forma corpórea, é o caso de perguntar por que foram inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar às nossas origens ancestrais. Antes de nos termos tornado caçadores cooperantes, devemos ter vivido em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se veem em outras espécies de macacos e símios. Nos casos típicos, cada grupo é dominado por um só macho. Este é ao mesmo tempo patrão e senhor todo-poderoso e cada membro do grupo tem de apaziguá-lo ou sofrer as consequências. O chefe é também o membro mais ativo na proteção do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante toda a vida, cada membro do grupo gira à volta do animal dominante. O seu papel de detentor de poder absoluto dá-lhe uma posição semelhante à de um deus.
Voltando agora para os nossos antepassados mais próximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do espírito cooperativo, tão fundamental para a caça em grupo, a aplicação da autoridade do indivíduo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e não passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes últimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a temê-lo. Para isso, o chefe tinha de ser cada vez mais como “um dos outros”. O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substituído por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante. Tratava-se dum passo essencial para a organização de um novo tipo de “entreajuda”, mas criou um problema. O domínio total do membro nº. 1 do grupo foi substituído por um domínio qualificado, de forma que aquele não podia impor uma lealdade cega. Embora essa mudança tenha sido vital para o nosso novo sistema social, deixou, no entanto, uma lacuna. Devido aos nossos antecedentes, conservamos a necessidade de uma figura todo-poderosa que mantivesse o grupo sob um certo controle, e a vaga foi preenchida com a invenção de um deus. Dessa forma, a influência da figura-deus inventada podia funcionar como uma força complementar da influência progressivamente decrescente do chefe do grupo. À primeira vista, surpreende como a religião tem tido tanto sucesso, mas o seu enorme poder nos dá apenas a medida da força da nossa tendência biológica fundamental, herdada diretamente dos macacos e símios nossos antepassados, para nos submetermos a um membro do grupo dominador e todo-poderoso. Por esse motivo, a religião tem-se revelado extremamente valiosa como mecanismo de coesão social, e é mesmo possível que a nossa espécie não tivesse progredido tanto sem ela, dado o conjunto especial das circunstâncias que acompanharam a nossa evolução. A religião conduziu a diversos subprodutos bizarros, tal como a crença numa “outra vida”, em que encontraríamos, finalmente, as figuras-deuses. Pelas razões já mencionadas, os deuses eram inevitavelmente impedidos de nos aparecerem na vida atual, mas essa falta podia ser corrigida depois da vida. Para facilitar as coisas, desenvolveram-se as práticas mais estranhas em relação ao destino dos nossos corpos quando morremos. Se vamos finalmente encontrar os nossos senhores dominantes e todo-poderosos, devemos ir bem preparados para o acontecimento, o que justifica todos os requintes das cerimônias fúnebres. A religião também originou muito sofrimento e miséria desnecessários, sempre que se formalizou exageradamente a sua aplicação e sempre que os “assistentes” profissionais das figuras-deuses não resistiram à tentação de lhes pedir emprestado um bocadinho do poder divino, para usar em proveito próprio.
Contudo, apesar de a história da religião ser muito confusa, trata-se de um aspecto da nossa vida social sem o qual não podemos passar. Sempre que se torna inaceitável, é rejeitada, de maneira calma ou violenta, mas surge imediatamente sob uma nova forma, talvez cuidadosamente mascarada, mas contendo todos os antigos elementos básicos. Muito simplesmente, precisamos “acreditar em alguma coisa”. Só nos mantemos unidos e controlados se temos uma crença comum. Nesse sentido, poderia afirmar-se que qualquer crença serve, desde que seja suficientemente poderosa; mas isso não é exatamente verdadeiro. A crença tem de ser impressionante e tem de ser visivelmente impressionante. A nossa natureza comum exige a execução e a participação em rituais de grupo requintados. Se se eliminam a “pompa e a circunstância”, deixa-se uma terrível lacuna cultural e a doutrinação não atingirá o profundo nível emocional que lhe é indispensável. Acontece ainda que certos tipos de crença são mais prejudiciais e estupidificantes do que outros, podendo mesmo desviar uma comunidade para tipos de comportamento rígidos que impeçam o respectivo desenvolvimento qualitativo. Como espécie, somos um animal predominantemente inteligente e explorador, e todas as crenças baseadas nesse fato são-nos extremamente benéficas. A crença na validade da aquisição de conhecimentos e da compreensão científica do mundo em que vivemos, da criação e apreciação dos fenômenos estéticos em todas as suas formas e do alargamento e aprofundamento do campo das nossas experiências da vida cotidiana vai se tornando rapidamente a “religião” do nosso tempo. A experimentação e a compreensão são as nossas figuras-deuses bastante abstratas, cuja ira será desencadeada pela ignorância e pela estupidez. As nossas escolas e universidades são centros de treino religioso e as nossas bibliotecas, museus, galerias de arte, teatros, salas de concerto e estádios esportivos são os locais de culto comum. Em casa praticamos o culto com os nossos livros, jornais, revistas, rádios e televisões. De certa maneira, continuamos a acreditar na pós-vida, visto que uma parte da recompensa obtida com os nossos trabalhos criadores é exatamente o sentimento de que continuaremos, através deles, a “viver” depois de mortos.
Como todas as religiões, essa também tem os seus perigos, mas se, como parece, precisamos ter uma religião, a nossa parece mais adequada às qualidades biológicas particulares à nossa espécie. A adoção dessa religião por uma maioria crescente da população do mundo pode ser uma compensadora e tranquilizadora fonte de otimismo que se opõe ao pessimismo expresso anteriormente, a propósito do nosso futuro imediato e da sobrevivência da espécie.
• Autor: Desmond Morris
• Fonte: O Macaco Nu. Ed. Record, pp. 140-3

terça-feira, 9 de novembro de 2010

LAVAGEM CEREBRAL



LAVAGEM CEREBRAL EM 8 PASSOS
QUALQUER SEMELHANÇA COM SUA DENOMINAÇÃO É MERA COINCIDÊNCIA
As principais características do controle de mente.

CONTROLE DE PENSAMENTO - Não é permitido ler material ou falar com pessoas que tenham idéias contrárias às do grupo. Em alguns casos, a vítima é geograficamente isolada da família e dos amigos.

HIERARQUIA RÍGIDA - São criados modos uniformizados de agir e pensar, desenvolvidos para parecer espontâneos. A vítima é convencida da autoridade absoluta e do caráter especial- às vezes, sobrenatural - do líder.

MUNDO DIVIDIDO - O mundo é dividido entre “bons”(o grupo) e “maus”(todo o resto). Não existe meio-termo. É preciso se policiar e ser policiado para agir de acordo com o padrão de comportamento “ideal”.

DELAÇÃO PREMIADA - Qualquer atitude errada, ainda que cometida em pensamento, deve ser reportada ao líder. Também se deve delatar os erros alheios. Isso acaba com o senso de privacidade e fortalece o líder.

VERDADE VERDADEIRA - O grupo explica o mundo com regras próprias, vistas como cientificamente verdadeiras e inquestionáveis. A vítima acredita que sua doutrina é a única que oferece respostas válidas.

CÓDIGO SECRETO - O grupo cria termos próprios para se referir à realidade, muitas vezes incompreensíveis para as pessoas de fora. Uma linguagem muito específica ajuda a controlar os pensamentos e as idéias.

MEU MUNDO E NADA MAIS - O grupo passa a ser a coisa mais importante - se bobear, a única. Nenhum compromisso, plano ou sonho fora daquele ambiente é justificável.

NINGUÉM SAI - A vítima se sente presa, pois não pode imaginar uma vida completa e feliz fora do grupo. Isso pode ser usado por políticos e militares para justificar execuções.

Fonte: Revista Superinteressante de março/2009, reportagem interessantíssima sobre a Lavagem Cerebral (pags 94-97).


COMO TER UMA “MENTE BLINDADA” PARA NÃO SE TORNAR VÍTIMAS DESTES MÉTODOS
PARE E PENSE:
- Quem ganha, concretamente, com a minha submissão e obediência?
- Esta organização trabalha para que?
- Esta organização está sob as ordens de quem?
- Tenho amplo acesso às informações que busco ou esse acesso é negado?
- Existe um importante setor da organização que é secreto e misterioso, do qual você nada sabe de concreto?
- Tenho liberdade para fazer escolhas em todas as áreas importantes da vida? (escolha da profissão; escolha de quem namorar/casar; escolha do que vestir; escolha dos amigos).
- Tenho liberdade para pensar e questionar?
- Tenho liberdade para expressar opinião?
- Qual valor essa organização me dá? A estrutura organizacional permite que eu tenha individualidade ou sou apenas um número na multidão?
- O humor sobre a organização é permitido?
- Você pode sair da organização sem sofrer grave penalidade?


“Acreditar é mais fácil do que pensar. Daí existirem muito mais crentes do que pensadores.” Bruce Calvert

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DONZELAS FECUNDADAS POR UM DEUS


DONZELAS FECUNDADAS POR UM DEUS - Mensagem machista por detrás do mito
O homem antigo temia que sua filha, irmã ou esposa se entregasse à relações “pecaminosas”. Basta ver como nos Códigos de Leis o castigo para a mulher que mantinha relações fora do casamento era pesadíssimo. No Código de Hamurabi (séc 18 a.C.), consta que a mulher suspeita de adultério, deveria saltar nas águas de um rio. Na lei de Moisés (Antigo Testamento) a mulher adúltera era morta a pedradas. Se o homem descobrisse que a noiva não era virgem, poderia matá-la na frente da casa de seus pais.
Na intenção de coibir e controlar o desejo feminino, a virgindade foi enaltecida, e a mulher foi convencida de que se tivesse a mesma liberdade sexual que os homens, ela estaria cometendo ato desagradável aos deuses.
Para que a mulher ficasse longe dos prazeres carnais, foi criado o Mito da mãe virgem, que dá à luz um semi-deus (herói), sem interferência de outro homem. Na tradição de vários povos do passado são inúmeros os casos em que um deus fecunda uma mulher na terra, e dessa união, nasce um semi-deus. A sutil mensagem nos diz:
Um. Seria indigno que alguns homens, pelo seu caráter especial, fossem concebidos da maneira tradicional.
Dois. O ato sexual é sujo e pecaminoso, portanto, um semi-deus ou um Salvador não poderiam ter nascido da união carnal entre mulher e homem.
Três. A mãe do semi-deus (herói) ao gerar a criança sem entregar-se ao liquido seminal do homem, estaria acima das outras mulheres.
Quatro. O culto à deusa virgem, que gera uma criança após ter sido fecundada por um deus, comum entre os antigos, incentivaria as mulheres – simples mortais -  a valorizarem sua virgindade. Os homens poderiam ir mais tranqüilos aos campos de batalha.

A Bíblia narra que Maria gerou o Salvador pelo poder do Espírito Santo. Apenas Mateus e Lucas mencionam o fato. Marcos e João não dizem nada sobre o nascimento virginal. Nem Paulo, o apóstolo, em suas cartas faz menção ao nascimento miraculoso de Jesus. Isto por que a concepção virginal de Maria foi moldada bem mais tarde aos textos dos Evangelhos.

Mesmo em nosso tempo, esse conto ainda é preservado pela doutrina cristã, e trata-se a meu ver, de um dogma perigoso para a humanidade, sobretudo às mulheres. A Igreja se valeu de muitos mitos “pagãos” e ao reproduzir o nascimento de Jesus igual a de outros deuses redentores, queria dar continuidade ao pensamento da época: seria desonroso que a mãe do salvador tivesse contato carnal com outro homem.
Mas, será que a dignidade de Maria se perde por ter gerado o mestre galileu com a contribuição de José, seu marido? O que haveria de tão desonesto para que a Igreja afastasse José de sua importância na concepção de Jesus?
Não creio que os ensinamentos do mestre diminuam em  importância, por ele ter sido gerado através do amor entre José e Maria. Não creio que Maria perca sua força, enquanto mãe de um grande espírito, como o foi Jesus de Nazaré.
Ao contrário do que a Igreja tenta propagar, Maria foi uma mulher como as outras, amou e foi amada pelo seu marido, em todos os sentidos. A própria Bíblia confirma que ela foi perfeitamente normal. Em Mateus 1-24, somos informados que José “não teve relações com ela até quando deu à luz um filho a quem deu o nome de Jesus”. Ora, isso quer dizer que depois dela ter gerado a criança, a vida sexual deles continuou na mais pura normalidade.
No entanto, a tradição cristã, seguindo a moda da época, transformou a concepção de Maria em algo miraculoso, afastando José do evento. Criaram até o dogma da Virgindade Perpétua: Maria teria sido virgem antes, durante e depois da concepção.
Os registros mais antigos de uma concepção milagrosa aparecem na Mesopotâmia, berço da civilização. No épico babilônico, temos Gilgamesh nascido da união entre o rei Lugalbanda e a Deusa Ninsun. Na mitologia greco-romana, era vasto o número de salvadores ou heróis (semi-deuses) nascidos da união de um deus com uma mortal, muitas delas, virgens.
Os gregos conheciam Dionísio (Baco para os romanos), como sendo filho de Zeus com a mortal Sêmele. O semi-deus Hércules (Heracles para os gregos) foi gerado do encontro entre Zeus e Alcmena, mulher de Anfitrião. Parece que naqueles tempos, os deuses tinham uma queda especial pelas mulheres da terra, e nem se importavam se elas já fossem comprometidas.
Pensemos agora em Zoroastro. Sua mãe, ainda virgem, fora fecundada por um raio de luz enviado dos céus por  Ahuramazda. Um elefante sagrado visitou em sonhos a virgem Maya,  manteve relações com ela, que acaba engravidando do senhor Buda. Como podemos perceber, o mito sempre traz uma mensagem velada. Resta a nós, descobrirmos qual.
Fernando Bastos – http://pensarporsi.zip.net/
Fernando Bastos
Publicado no Recanto das Letras em 16/10/2007
Código do texto: T697049